terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Vida de tradutor no verão

[Redação para bolsa de estudos na oficina da Isa Mara Lando, email: isamaralando@gmail.com]


Merecer? Eu? Eu não mereço nem o teto sobre minha cabeça. Não
mereço a vida que levo, nem o pão que jogo fora. Não mereço minha TV, meus
DVDs, meus LPs. Não mereço meu prato de feijão, o agrião não mereço. Não
mereço meus livros, nem eles me merecem. Haverá melhores leitores, ávidos
por letras e fartos de tempo. Os escritores? Esses se merecem! Todos loucos,
poucos e não compreendidos. Mas uma vida melhor? Isso sim eu mereço.
Afinal, trabalho duro para pagar minhas contas. Falar de mim é fácil, difícil é ser
eu! Viva a meritocracia! Afinal cada um tem seus próprios méritos. Batalhei a
semana toda, agora mereço descanso. Enfim, sábado! Mereço não fazer nada.
Nem louça vou lavar. Lavarei apenas meu rosto, meu corpo, sentirei a lufa
quente do Rio e dormirei de tarde, até mais tarde.

Mas eis que o laptop me olha, assim fechado, implorando para ser
aberto. As trinta e cinco mil e trezentas e setenta e sete palavras não vão se
traduzir sozinhas! É preciso levantar, comer, abrir abas do Chrome, consultar
dicionários, pesquisar cada palavra mil vezes – polissemia, obrigada! – e se
deparar sempre com aquele falso cognato que você já leu duzentas vezes, mas
sempre se esquece. Haja revisão! Como conseguir transformar um diálogo tão
natural para os ouvidos ingleses do século 18 em música para ouvidos
brasileiros pós-modernos do século 21. Ou olhos, afinal, são leitores. Ninguém
vai ler este livro. Está uma porcaria! Ninguém vai comprar, ninguém vai nem se
lembrar daquele nomezinho depois do autor no frontispício. Ninguém nem sabe
o que é um frontispício. Um hospício das letras!

Merecer uma bolsa na oficina de tradução da Isa Mara Lando no dia 14
de janeiro na simpática Biblioteca Municipal de Botafogo? Merecer não mereço,
mas se tudo tem seu preço, sem a bolsa certamente como tradutora eu pereço.

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