“O desafio da tradução criativa começa no momento em que constatamos que a única língua inteiramente ao nosso alcance é aquela em que de fato pensamos e vivemos”, escreve o tradutor Modesto Carone no livro Lições de Kafka, o qual, além de decifrar os enigmas da obra do escritor tcheco, reflete sobre a atividade do tradutor literário.
Na obra, Carone imagina a situação de um hipotético tradutor nórdico dos “Poema(s) da cabra”, de João Cabral de Melo Neto, diante de um verso como “se a serra é a terra a cabra é pedra”, onde as consoantes duplas parecem encher o verso de pedregulhos, remetendo à aridez do Nordeste brasileiro.
Uma dificuldade desse tipo levou o poeta Robert Frost a afirmar que poesia é aquilo que se perde nas traduções. Não é de hoje que se discute até que ponto pode-se avançar na tradução de uma obra literária, sobretudo quando envolve grandes autores. O tradutor é sempre alvo do velho adágio italiano traduttore, traditore, que relaciona tradutor a traidor. Será mesmo?
+web.jpg)
