No livro ‘A passagem tensa dos corpos’, o escritor mineiro ironiza a morte ao dar à linguagem um papel central na narrativa
Ninguém vive sem um bom morto, diz o narrador do livro. Em sua estreia no romance, Carlos de Brito e Mello cria um personagem insólito em A passagem tensa dos corpos: incorpóreo, resta-lhe somente a língua que se divide em devorar restos de comida e registrar oralmente óbitos infindáveis.
Em uma cidade do interior de Minas Gerais, o narrador-personagem se vê em uma estranha situação. Alguém morre mas o corpo não é enterrado por seus familiares. Como se nada tivesse acontecido, o cadáver é mantido amarrado à cadeira na mesa da sala, enquanto a mãe e a filha, genericamente assim chamadas, se ocupam dos preparativos para um casamento sem noivo e ignoram um filho problemático trancado no quarto. Inquieto, o irônico narrador percebe que para existir de fato ele precisa se apropriar da linguagem.
Com 156 capítulos curtos e parágrafos fragmentados, A passagem tensa dos corpos procura evidenciar a constante ambiguidade da linguagem em relação à morte. Autor do livro de contos O cadáver ri dos seus despojos (Scriptum, 2007), o escritor mineiro acredita que a morte é o elemento propulsor do texto e ressalta o poder da palavra literária em conferir significados a ela.
O tema da morte é recorrente em seus trabalhos?
–Em O cadáver ri dos seus despojos, os contos não foram escritos com o propósito de se agruparem a partir da temática da morte. Já no romance elegi a morte como uma questão central. Inevitavelmente, tem a ver com minha relação pessoal com a morte. A morte corresponde a essa dimensão indizível da nossa experiência. A gente não a conhece, não consegue falar sobre ela, apenas experimenta essa neutralidade do cadáver. O cadáver não diz nada, só omite o que nós desejaríamos saber sobre a morte. Para mim a religião nunca foi uma possibilidade de compreensão da morte. Acho que a palavra literária pode ser uma forma de suportar a morte, de se aproximar dela e percebê-la em alguns de seus aspectos. A morte inaugura o texto. Em algum momento ela sempre estará lá.

