[Inspirado em “Youth” de Glass Animals]
Eu só quero o melhor para você, filho. Foi com muita angústia que tomei esta decisão e espero que não me julgue. Sempre trabalhei muito para te dar o melhor e do melhor. Tinha certeza de que você se daria bem na vida. Antes de você nascer, já imaginava os livros que você iria ganhar e em qual aniversário. Já fantasiava em ler à noite para você uma história selecionada cuidadosamente, leve e que lhe dê esperanças para a manhã seguinte, e que lhe afaste os pesadelos. Comecei a minha – quer dizer, a sua – biblioteca cedo. Clássicos infantis para que você tenha contato com a boa literatura.
Como eu gostaria que tivesse sido comigo. A ficção é vida, e os livros te levarão longe. Todo mundo diz que é lendo que se aprende a escrever bem. Bom, comigo foi assim também. E, escrevendo bem, você irá bem na escola. Tirará boas notas e virá mostrar seu boletim orgulhoso para mim. Eu direi parabéns filho e darei um abraço forte, gostoso, sentirei seu cheiro, pegarei em seus cabelos macios…
Mas, sim, você vai estudar na melhor escola do bairro. Farei o possível para pagar uma escola particular para você! Mesmo que isso significa me manter nesse emprego o qual detesto a cada dia mais. Formei-me Letras e na bebida busco esquecer… Veríssimo tinha razão. Eu era jovem, cheia de sonhos, queria viver da leitura! Escapar da minha realidade. Mas você não! Dar-lhe-ei todos os livros do mundo, te farei um doutor das letras, mas... sem exageros. Nem tantos para que você perceba que há algo mágico neles, algo da verdade naqueles personagens fictícios. Tomarei todas as medidas necessárias para isso. Tentarei não me empolgar demais ou me emocionar ao ler para você Clarice, Graciliano e Machado. Não a ponto de você querer viver disso.
Também já preparei uma playlist para sua festa de 15 anos – pois sei exatamente que gosto musical você terá. Tudo será providenciado. Música clássica até os dois anos, jazz até os quatro e rock a partir dos cinco. Você terá um excelente tino para música! Aos 10, colocarei você nas aulas de piano. Aos 12, nas de guitarra. Mas espero que não se empolgue muito e queira montar sua própria banda. Afinal, desde cedo vou avisando que o mercado musical é difícil e que uma boa dose de sorte é imprescindível. Tudo na medida, no equilíbrio. Porque, afinal, quero muito que você seja feliz, que tenha um bom emprego e amigos de roupas sociais. Que tome café gourmet todos os dias da semana, que veja naquele café depois do almoço a razão pelo seu sucesso, sua imagem, que se entorpeça de cafeína para não se lembrar de voar para outros muros, para que construa seus próprios muros e viva seguro neles, que leve uma vida tranquila, sem sobressaltos ou atropelos, que conheça uma mulher divertida e que ela te traga alegrias, mas que não te desvie do caminho, esse caminho, que talvez você não saiba qual é, mas que já está nele, o caminho de giz que eu desenhei para você, lembra?
Você tinha seis anos quando brincávamos de amarelinha. Lembra que você me perguntou sobre as regras e como fazia para chegar ao céu? Falei meio no automático que era necessário pular primeiro de um pé só e depois com os dois nas casas quatro e cinco. Aí você questionou por que não podia ir apenas andando. Não queria dar lições de moral nem nada, mas falei que para chegar lá era necessário esforço, trabalho, sacrifício… Mas depois pensei que eu também gostaria de ir andando até lá. Para mim não foi fácil. Teve esforço, teve dor… nem acho que cheguei lá ainda. Mas para você não será assim. Você tem a vida toda e vou facilitar seu caminho. Só não quero que sofra. Segurei sua mão um pouco fria de suor e o levei até o céu, sua mãozinha gelada, seu corpo ainda tentando se equilibrar na casa seis. Quero que vá longe, que voe… Lembro-me da sua camiseta dos Ramones. Você estava lindo naquele dia. Tudo que eu gostava estava em ti. Tudo que eu li, ouvi e escrevi. Você estava em mim mesmo antes de nascer. Seus olhos são castanhos escuros como os meus.
Só quero o melhor para você. Mesmo que o melhor seja o pior em mim. Mesmo que eu me esqueça, mesmo que eu tenha me privado dos meus sonhos. São sonhos, afinal, bobagem. Não sei como fui nutrir coisas tão irreais assim. Ah, já sei. Livros.
Por isso, descobri. Prefiro não te ter.

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