sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Aquela menina escreveu um conto


Aquela menina escreveu um conto aos 13 anos, e sua vida nunca mais foi a mesma. Um conto não contado a ninguém. Não contou para sua mãe, nem para o pai, nem para amiga de infância. Nem para a sua Barbie favorita, tinha várias, é verdade. Eram suas companheiras quando ouvia o vozerio dos pais brigando na cozinha. Nessas horas, desejava sumir, desejava nunca ter nascido, e nunca ter deixado o professor de história ter tomado seu escrito.

O professor – assombrado com o que eu leu – passou aquele dia em claro, lendo e relendo aquele conto formidável. Não era parecido com nada que já tivesse lido. Era algo sublime, no limiar da loucura e da sanidade. Uma maldade seria não alcançar maior número de leitores possível. Com certeza, pensava, todos louvariam a pequena; seu conto nos faria ver o mundo de outra maneira; as palavras subverteriam nossos papéis, já não saberíamos quem somos, nem se de fato vamos a algum lugar. O conto faria a terra girar, nos faria olhar para nós mesmos, e o Big Bang seria apenas um detalhe.


Sim, o conto nos daria esperança sobre a bonança vindoura, sem que deixemos de exercitar, hoje, tudo o que um dia aprendemos sobre o amor. Amor, palavra que já não significava muito para ele, alma solitária, sempre a recusar convites a eventos sociais, até mesmo um singelo happy hour com os outros professores, desviando o olhar quando chamavam Nelson, venha também! Mas ele sempre dizia que andava ocupado, que tinha provas para colocar em dia, e capítulos de clássicos franceses para avançar. Ler, eis seu único prazer! Para que se importar com pessoas, tão problemáticas, reumáticas e inconstantes. A letra no papel está ali, e ficará ali para sempre, ainda que tenha com fundo o papel um pouco amarelado. Aliás, foi justamente por causa da escrita que se interessou por história. Quer coisa mais histórica que palavra escrita? Tem início, meio e aponta para um fim, um futuro, um ponto final. Nossa história. Desde que começou a mergulhar em leituras, passou a desconfiar mais das pessoas. Só um escritor para ir ao âmago de algumas e desvelar seus mistérios. Por isso, não tinha muita paciência pra gente. Bicho, gostava, é verdade. No entanto, suas últimas leituras o faziam se sentir pesado, suportando a carga do mundo. Um rebojo melancólico que já durava semanas, interrompido unicamente pelo conto da menina.

E que conto! Todos precisam ler aquilo. Que vigor, que pujança! Como uma criança pode escrever assim! Olhava sua prateleira de adobe envelhecido. Quantos livros, quantos sábios. No entanto, nenhum desses mortos o fez sentir como aquela menina, como o conto daquela menina tímida. Quanta criatividade! Sem dúvida, tivera uma excelente educação. Como conseguira captar o que sua alma tentava lhe dizer já há tanto tempo? Quando seus sonhos já não faziam mais sentido, quando sua vocação já não lhe trazia respostas. Que é meu papel no mundo?, perguntava-se. Inquieto, pegou um envelope, um bloco e uma caneta. Começou a escrever e a anotar todo o turbilhão de pensamentos que fluía freneticamente pelas suas redes neurais. Sentia a cabeça quente. Já passavam das três da manhã. Não tinha sono.

Arrancou mais uma folha do bloco, e outra e mais uma. Pensou em quanto tempo não escrevia uma carta para alguém. Precisava postá-la amanhã pelo correio. E tinha que ser uma carta e de próprio punho. Amanhã, ele pensou, será tudo diferente. Vou construir uma nova vida. E então libertarei os fantasmas que já carrego comigo há alguns anos. Nada mais importa. Mas, antes de partir, preciso contar, preciso escrever este conto. E assim copiou o conto. Tentando imitar a caligrafia perfeita da menina. A mesma caligrafia que chamou sua atenção durante a aula sobre a Revolução Francesa. Ela parecia distraída, absorta em seus escritos, parecia não dar a mínima para o conteúdo importante que estava no quadro. Um dos fundamentos da Era Moderna com letras maiúsculas que, certamente, cairá no vestibular. E todos precisam passar no vestibular, oras! Todos precisam de um diploma para ter uma profissão para... tentar achar algum sentido.

Suspirou. Tomou o papel da mesa da menina irritado. Pediu que ela fosse para a sala do diretor. Não costumava ser rígido com os alunos. Mas as últimas semanas tinham sido difíceis. Pôs o papel dentro do bolso junto com o celular. Ficava sim indignado quando um aluno não prestava atenção na aula. A sensação de falar sozinho lhe dava náuseas. É como se não fizesse diferença estar vivo ou morto. Como será minha morte? Quem vai corrigir as provas? Ainda bem que os celulares foram proibidos em sala de aula… toda aquela apatia entre os jovens lhe aumentava o azedume.

Voltando para casa no ônibus lotado, sentiu o objeto vibrar. Só então se lembrou do papel. Abriu-o com dificuldade. Olhou o título “Amanhã”. E já não podia mais desgrudar os olhos do conto. Aquilo lhe falava intensamente. E ele ouvia, atentamente. Desceu do ônibus e seguiu curvado para casa sem olhar para os lados. O papel amassado nas mãos. Queria terminar de ler, queria saber o final da história. Seu coração batia rapidamente, as mãos tremiam, os olhos seguiam cada letra, já não se lembrava mais de quem era ou onde estava. Apenas precisava saber o fim da história para também descobrir seu próprio fim.

Quando finalmente chegou a casa, esta estava vazia como de costume. Sentou-se à mesa, terminou de ler o conto e pôs-se a escrever. Nádia precisa saber disso, pensou. Nádia foi o nome colocado no envelope quando terminou de transcrever o conto. O original ele levaria consigo. Para onde? Isso ele bem sabia. No dia seguinte, fez as malas e partiu.

*
A menina voltou para casa sem entender muito bem o que havia acontecido. Nunca se comportara mal na escola, nunca estivera na sala do diretor. Sentia a necessidade escrever naquele momento, sem ligar muito para a aula. Algo estranhamente forte a impulsionava a escrever. Sentia raiva, dor, mas no fim alívio. Uma pena o professor ter tomado o papel justo naquele momento. O conto quase no final, a trama se resolveria, não poderia deixar assim em aberto. Não, ela precisava ter aquele papel de volta.

*
Após postar a carta no correio, o professor seguiu para a rodoviária ainda em êxtase com o que havia acontecido. Não dormiu, não comeu. Aparentemente nada em sua vida tinha mudado. Mas sua mente parecia dar voltas, tomado que estava pelas palavras lidas. Pensou em todas as possibilidades que o amanhã reservaria. O futuro, antes uma incógnita, agora parecia estar já escrito como um destino.

Disso não havia dúvidas. Amanhã, ele chegaria ao seu destino, amanhã tudo seria diferente. Ele voltaria para aquela cidadezinha do interior, voltaria para ela, poderia recomeçar… Pegou o papel novamente, queria ter o frescor da leitura outra vez.

O susto durou alguns segundos, mas o partir de ossos perdurou por mais algum tempo nos ouvidos dos passantes. Um ônibus saía da garagem da rodoviária um pouco atrasado e acertou o professor distraído. Morreu na hora.

*
A menina, quando soube do ocorrido, jurou para si mesma que nunca mais escreveria novamente. Seguiu a vida muda, frágil e anônima. Jamais ousaria colocar seus pensamentos em palavras outra vez. O medo a acompanhou durante toda a vida.

Nádia recebeu a carta. Aquela moça leu o conto. Sentiu a mesma emoção do seu amado. E sua vida nunca mais foi a mesma.

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